sexta-feira, 30 de março de 2007

Vamos à lota!

Página 41 – “WINNIE – Três rodovalhos.”

O rodovalho é mais outro peixe espalmado. De forma parecida com um vago losango, pode atingir 1 metro de comprimento. Portanto, pode ser um gigante! Tem carne branca, de sabor delicado, e também há quem lhe chame “pregado”. Come-se preparado de várias formas: assado, grelhado, frito ou cozido. Inteiro, se for pequeno, à posta se for gigantesco.
É um peixe muito apreciado em alta cozinha.

Comer a andar...



Página 41 – “GWEN [para PETER] - Quatro bacalhaus… pedimos bacalhau?”

“A Bruxa passou-se… estamos podres de saber o que é bacalhau. Porque é que ela faz um comentário ao bicho?” estão vocês a pensar.
Pois, lamento dizê-lo, mas a Bruxa não se passou nada e não está a fazer comentário nenhum ao bico. Está a fazer um comentário à forma como o bicho é comido.
O gadídeo (vão ver ao dicionário!) é o mesmo, mas os ingleses não conhecem o bacalhau salgado seco de que os portugueses tanto gostam. Eles preferem-no fresco (estão mais perto da zona de pesca, também…) e fizeram dele um dos mais antigos pratos de fast food da Europa. Passado por farinha e ovo e frito, acompanhado de batatas fritas em palitos grossos e embrulhado numa folha de papel de jornal, era o conhecidíssimo fish‘n’chips
com que os passeantes se deliciavam enquanto caminhavam pelas frias ruas das cidades inglesas.

Cantorias...


Página 39 – “[PETER canta a sua canção e levanta HANS, pondo-o de pé.]

Cá vai ela. Agora, o jovem aprendiz a quem for distribuído este papel, terá de ir ter com a Mestra de Laringes para trabalharem isto…

quinta-feira, 29 de março de 2007

Fornos e câmaras de gás...

Página 38 - "FRANK - O que é que queres que usem? Fornos de gás?"
Durante o período de vigência do seu regime, em especial durante os anos da Segunda Guerra Mundial, os nazis estabeleceram uma rede de campos de concentração com o fim de retirar do convívio social todas aquelas pessoas que, por várias razões, achavam não dever pertencer a uma sociedade ariana pura. À frente esses excluídos vinham os judeus, ciganos, comunistas e homossexuais seguidos das Testemunhas de Jeová, prisioneiros de guerra e outros pequenos grupos. O primeiro campo, Dachau, foi criado no dia 22 de Março de 1933 e destinava-se a presos políticos. Ao todo, conhecem-se mais de trinta, entre campos de trabalho e de extermínio.
Em princípio e em teoria, estes campos destinavam-se a manter prisioneiras todas estas pessoas. Contudo, com o passar do tempo, o regime viu-se confrontado com a vastidão dos números e a enormidade da tarefa, ao mesmo tempo que as teorias racistas se desenvolviam e afirmavam. Assim, no que denominou Solução Final, o regime nazi resolveu transformar alguns desses campos em campos de extermínio e para aí encaminhou muitos dos prisioneiros. A forma de extermínio escolhido foi prioritariamente a câmara de gás, após o que os corpos eram cremados. No final da Guerra, havia perto de 6 milhões de mortos entre os judeus e uma contagem final de 50 milhões, entre prisioneiros, militares e civis, mortos durante a luta.
Os campos de extermínio mais importantes foram, por ordem alfabética: Auschwitz – Birkenau (entre 1.100.000 e 1.500.000 mortos), Belzec (600.000), Chelmno (340.000), Jasenovac (700.000) Sobibor (250.000), Treblinka (+ 800.000), Varsóvia (200.000).

quarta-feira, 28 de março de 2007

Quanto Ouso - Capítulo Onze

Trabalho – carpinteiro

Deixei Upton House durante o Verão de 1948, com 16 anos, não tendo conseguido obter o certificado escolar. Queria ser escritor mas pensei: os escritores escrevem o que fazem, onde quer que estejam. Tenho a responsabilidade de contribuir para a minha família e tenho de trabalhar.
Sendo eu quem era, que trabalho estaria mais perto do acto criativo que satisfizesse a minha necessidade de “fazer” coisas? Fabrico de móveis, claro! O ofício do meu querido cunhado que, pouco tempo depois, adaptaria um celeiro em Norfolk para fazer mobília à mão, incluindo mini cadeiras Windsor que a Rainha Mãe compraria para dar aos netos, Anne e Charles. O Ralph arranjou-me um trabalho como aprendiz de um velho artesão judeu, o sr. Goodman, onde esperei assentar e aprender a arte de fabricar mobília antiga.
[...]
Ensamblava pequenas juntas e esculpia respigas e mechas para ele. Cortava à medida pequenos bocados de varetas de secção quadrada e colava-os no interior das gavetas. Punha pregos na boca e pregava fundos de contraplacado que ele depois folheava. Lixava frentes de gavetas que eram mandadas para outro local para serem “gastas”.
Mas foi um erro. A vida de artesão não era para mim. Nem a mão nem o coração eram firmes.
[...]
Queria manter-me fiel à madeira e às ferramentas [...] e tornei-me “companheiro” de um carpinteiro poucos anos mais velho do que eu chamado Tom Carter, cujo sotaque cockney era tão carregado que a minha mãe não fazia a mínima ideia do que ele dizia. Eu tinha de o traduzir.
[...]

Trabalho – espanejar livros

Estive poucos meses com o Goodman e poucos meses com o Tom. A minha mãe partilhou os seus receios com o Tio Perly que se fartou de pensar e acabou por ter uma ideia. “O Arnold quer ser escritor? Conheço um homem, o Louis Simmonds, que tem uma livraria em Fleet Street, que dirige com a mulher, a Rose.” Fantástico! Ia ficar perto de livros!
[...]
As minhas principais tarefas consistiam em limpar o pó batendo os livros uns contra os outros e inspirando o que quer que fosse que se soltasse, reinstalar a ordem depois de os clientes terem espalhado os livros por todo o lado e estar atento aos ladrões de livros.
Ler? Quase nunca. Durante a pausa do almoço, por vezes. Quando estava preso a um livro, empoleirado no alto de uma escada, uma tossezinha do senhor ou da senhora mandava-me descer à terra e fazia-me percorrer as tentadoras prateleiras a que havia que resistir como ao traseiro de uma mulher.
[...]

Estamos em 1950

Os meus dezoito anos. No dia 9 de Novembro apanharia o comboio para a Base Aérea de Padgate – despedindo-me na estação da minha mãe e de Shifra – para dar início a um ano e meio de serviço militar. Entretanto, tinha sido um ano movimentado: trabalhara para Louis Simmonds, depois para Robert, depois como ajudante de canalizador na doca de St. Katherine. [...] Foi o ano em que recebi da LAMDA [London Academy of Music and Dramatic Arts] a Medalha de Prata de Dicção [...]. Foi o ano em que fiz a primeira audição para a RADA [Royal Academy of Dramatic Art] e não consegui ganhar a bolsa da LCC. Nesses tempos os estudantes que precisavam delas recebiam-nas automaticamente no momento em que fossem aceites por uma universidade. Não era o caso dos alunos de artes. Para a música, dança, pintura e interpretação a LCC tinha a sua própria barreira defensiva, um segundo painel de avaliadores. Bem vistas as coisas não se pode confiar nos directores das escolas artísticas, aceitam quem quer que seja para garantirem o dinheiro.
[...]
Mil novecentos e cinquenta foi o ano em que escrevi a minha primeira peça, E Depois de Hoje para os Query Players, nada boa, e “Retrato de um Homem”, um retrato não disfarçado do meu pai e da sua vida nos anos com a minha mãe, com vinte e quatro páginas escritas à mão, e que continha já as sementes de Canja de Galinha com Cevada, escrita sete anos mais tarde.
[...]
[Teve uma curta carreira de actor amador, sem grande sucesso]
Em mim, o actor permanece. Adoro ler e leio bem. Desde Roma que as minhas aparições em palco, para lá das conferências, consistem em leituras das peças e histórias. Na sua maior parte leituras de Peças Para Mulheres em Um Acto.
[...]
Dêem-me um banco de bar, uma mesa, um copo de água e um público e eu resplandeço com aquele poder que pela primeira vez experimentei quando fiz o Rei Cophetua. Não é um talento, antes uma facilidade em cativar, segurar e controlar o público. Gostaria imenso de ter um sítio onde se soubesse que eu iria estar todos os domingos durante um ano, a ler qualquer coisa.

(Pp. 215-234)

Quanto Ouso - Capítulo Dez

A Liga das Crianças de Escola

[...]
Aos dezasseis anos [1948] fui aprendiz de marceneiro em Norton Folgate, Londres E1, dispondo de uma facilidade de organização aprendida no Habonim. [1]
[...]

Preso por Homicídio

[...]
Durante algum tempo, tomei conta de uma desmazelada banca que ele [Robert, o director de uma escola em que Wesker andou] alugara no Mercado de Bermondsey, onde vendia trastes de ferro-velho e travou amizade com Tommy Steele, antes de ele se tornar Tommy Steele. Não soube nada desta relação até alguns anos mais tarde, ocupado que estava a vender ninharias naquela abjecta e patética carreta de madeira com uns poucos objectos abandonados que Robert adquirira em leilões de salvados: armadilhas ferrugentas, bocados de canos, chávenas de plástico, caixas de parafusos, os detritos de pequenas aventuras de negócios falidas e vidas falhadas. Não me lembro de alguma vez ter vendido o suficiente num dia para pagar o meu salário.
Felizmente, os meus tempos de vendedor no mercado foram curtos. Semanas, acho. Depois, Robert dedicou-se aos livros. Alugou uma cave em Holland Place, à saída de Kensington Church Street e gradualmente encheu-a de livros em segunda mão que poucos pareciam querer – havia uma tabuleta do lado de fora que não parecia convencer ninguém. Passei mais tempo a arrumá-los e ordená-los do que a vendê-los. Não que me importasse. Até mesmo agora, que vivo no maior centro mundial de venda de livros em segunda mão, dou comigo nas lojas de Hay a dar satisfação a essa necessidade de arrumar os livros que clientes descuidados deixaram fora do seu lugar.
[...]

Uvas em Long Acre

[...]
Por volta desta altura, estamos em 1949, dois empregos ocasionais. Um, na cidade, um armazém onde os fabricantes de casacos e blusões de cabedal vinham comprar as peles. A minha função, com outros, consistia em empurrar carrinhos cheios de peles que os compradores escolhiam num catálogo, fazer escorregar as peles de cima do carrinho, bater com elas num banco de madeira e virá-las para serem inspeccionadas, uma a uma. Tínhamos um salário-base mas o grosso dos ganhos, que eram substanciais, provinha das gorjetas – um trabalho em períodos curtos, que aparecia de vez em quando, e que pode ter dado uma ajuda na viagem para Paris. O outro trabalho, também de substituição, causou grande impressão em mim. Um escritório em Long Acre – nesses tempos, parte do florescente e barulhento mercado de fruta de Covent Garden – onde manuseava um telefone e apontava as encomendas dos grossistas de fruta – uma revelação quanto à loucura deste mundo louco. O meu patrão não fazia mais nada a não ser comprar um carregamento de fruta num telefone e vendê-lo aos caixotes noutro. Nessa altura comemos muitas uvas em Weald Square [casa da família de Wesker]. Terão sido um presente? Comprava-as ao preço de custo? Fariam parte do meu salário? Acho que era grego. Ou do Chipre. Guardei-o num canto durante vinte e sete anos.

(Pp. 199 – 214)

[1] Organização criada em Inglaterra em 1932, que tinha por iobjectivo treinar os jovens judeus para o regresso a Israel, onde trabalhariam em kibbutzin e contribuiriam para a construção do Estado de Israel. Wesker juntou-se-lhes em 1945 e manteve-se com eles durante 3 ou 4 anos, até sair da escola.

terça-feira, 27 de março de 2007

Quanto Ouso - Capítulo Sete

[…]

Um quarto só meu

Poderá ter tido mais do que 3,60m por 2,40m? Um quarto que era uma caixa. Normal. A janela deitava para o pátio de recreio de Weald Square onde as crianças brincavam e se pendurava a roupa. Foi meu logo desde o início e senti-me um privilegiado.

[A família de Wesker viveu sempre em casas camarárias, pequenas e sem condições. O dramaturgo transcreve algumas cartas da mãe a queixar-se e a pedir que a mudassem de casa.]

Com um quarto só para mim veio o hábito de armazenar e ordenar. Arrumei os meus poemas, pus folhas de papel e papel químico nas gavetas, alinhei os meus livros por ordem alfabética em prateleiras e no parapeito da janela. Armazenados e pendurados. Um quarto só meu encorajou a minha mania de pendurar coisas – um instinto animal para reclamar um espaço. Os actores fazem isto aos camarins. Penduram os cartões da estreia; a mesa fica coberta com tralha vinda de casa... uma almofada preferida, um lenço que enfeita um espelho de estimação, um cobertor velho para umas sestas. O que armazenai nos meus sessenta e oito anos de vida vive em caixas, numeradas de um a sessenta e oito em folhas de papel de computador, nos sótãos de Ashley Road e Blaendigeddi. Em termos ideais, gostaria de construir uma sala de armazenamento separada que contivesse tudo: manuscritos originais, diários que chegariam para cinquenta romances escritos à mão em cadernos, teses académicas, arquivos do Quarenta e Dois, declarações de direitos de autor, provas de livros, exemplares da Time Out desde o primeiro número, cartas dos agentes, cartas dos tradutores, cartas de instituições a convidarem-me para fazer palestras e doar dinheiro, correspondência de toda a gente. E livros de cheques. Tudo está armazenado, incluindo o meu primeiro livro de cheques, que começa em Junho de 1958.
[...]
E tudo porque, com a idade de dez anos, me deram um quarto só para mim que me incitou a manter a ordem. Que teria acontecido se o não tivesse? Que personalidade teria? Esta pretensão que tenho de ser um espírito livre (sim, sim, eu sei, ninguém é realmente livre), esta confiança, será que começa num quarto que é só nosso? Eu só sei que rejubilei com a nova liberdade proporcionada por este apartamento do LCC [London City Council – Câmara de Londres] na Upper Clapton Road, um quarto que arrumei, arranjei e rearranjei vezes sem conta.
[...]

Vizinhos

Os vizinhos que a minha imaginação fixou e que se tornaram a imagem da classe trabalhadora inglesa, destruindo, de forma quase irracional, a minha percepção, foram os Gammer, da porta ao lado.
[...]
A humanidade está dividida de muitas formas: ricos e pobres, doentes e saudáveis, sensatos e tolos, bons e maus, todos os conhecemos; mas talvez uma das divisões mais tristes seja entre os que dão e os interesseiros. A minha mãe fazia parte dos que dão – acho que todos os Perlmutter são assim – e entre os sensatos e os tolos, provavelmente estava nos tolos. Os Gammer nem davam nem eram tolos. Apesar de a nossa família ter tomado conta da Lil e do pequeno Michael durante os últimos anos da guerra, ela nunca retribuiu a hospitalidade. Lembro-me de empréstimos – os vizinhos costumavam pedir emprestado quando as rações acabavam – e lembro-me de que podíamos ir ao apartamento dela para pequenos períodos de conversa, mas que não havia uma reciprocidade genuína e calorosa. Quando o marido marinheiro regressou e retomou a vida civil como motorista de autocarros, o casal tornou-se mais frio e até libertou ocasionais odores de anti-semistismo, do género nunca assumido abertamente, apenas insinuado de formas que acabámos por reconhecer: “Vocês, a vossa gente mantém-se unida, estão sempre à parte... não deviam ficar admirados se...” O que me traz à história do David Hare.

A história de David Hare – um aparte

Hare é um dos mais importantes dramaturgos da geração a seguir à minha, ou será da geração a seguir a essa ainda? Também ele escreveu uma trilogia de peças: A Trilogia de David Hare. São muito apreciadas. Também escreveu e dirigiu os seus próprios filmes. O primeiro de todos – Weatherby – tem uma cena curiosa. Vanessa Redgrave está à janela, a olhar para o céu – penso que é uma janela e que ela está a olhar para o céu – com características que encaixam vagamente num ar de reflexão. Ela olha para reflectir em algo da mais profunda importância. Esperamos, sentindo que vai ser algo intrépido e corajoso. Do resultado da sua meditação sai algo deste género: “porque será que,” pergunta em voz alta não sei bem a quem, “quando um judeu conta uma anedota de judeus, isso se considera humor judaico, mas quando outra pessoa o faz dizem que é anti-semitismo?” Para a maior parte das pessoas razoáveis isto pareceria não só ser uma pergunta razoável, mas também uma pergunta cuja verdade salta pelos olhos dentro, não necessitando de resposta. Com toda a certeza que o senhor Hare e Miss Redgrave a consideram incontroversa, uma vez que as deixam palavras flutuar para fora da janela, deslizar suavemente como verdades que são até ao inconsciente dos gentios que estão no público que não podem deixar de, em silêncio, concordar com a cabeça. Não há qualquer outra personagem à vista que desafie este pensamento. Deve ser profundamente satisfatório para muita gente; haverá vizinhos que se viram uns para os outros, sorrindo os seus sorrisos simpáticos: “E não sabemos nós que é assim?” e “Não pensámos já isto muitas vezes?” e “Até que enfim que alguém disse isto em voz alta! Ah...”
Também eu sorri na altura, e o meu sorriso, tal como outros no público, foi um sorriso de reconhecimento. Se bem que eu tenha reconhecido outras coisas. Perdoe-me, senhor Hare, mas roubei as suas palavras. Estão na minha peça Quando Deus Quis um Filho. Essa peça, sobre a eternidade do anti-semitismo, constrói-se num casamento desfeito entre um judeu e uma gentia e o efeito que isso tem na única filha do casal, que está a ter dificuldades em afirmar-se como stand-up comedian porque não consegue decidir como quer que o seu humor seja e este parece acabar sempre por assumir um tom judaico, ácido e bastante intelectual. A mãe dela tem dificuldade em pronunciar a palavra “judeu”. Os judeus confundem-na. Foi por isso que se separou do seu marido judeu que passava o tempo a argumentar e a falar e tinha imensas ideias incompreensíveis sobre a linguagem. O marido regressa inesperadamente... tentando, de forma absurda, convencer a mulher de quem está separado a investir num dos seus projectos linguísticos de procura da verdade. O humor torna-se um tópico de conversa. A mulher proporciona a meditação Hare-ística:

"MARTHA – E porque é que, pergunto-me, quando um judeu conta uma anedota de judeus dizem que é humor judaico, e quando outra pessoa o faz dizem que é anti-semitismo?
JOSHUA – Porque quando um judeu conta uma anedota de judeus é humor judaico mas quando outra pessoa o faz é anti-semitismo."

De volta aos vizinhos

No entanto, no princípio não senti nada deste anti-semitismo disfarçado. A jovem e abandonada Lil Gammer, cujas formas percebi por baixo do fino vestido de algodão, dominou a minha puberdade. Fantasiei ter sido seduzido por ela. Ao mesmo tempo, a minha mãe, dividida entre o dever da boa comunista de amar e admirar a classe trabalhadora e o seu congénito ódio por esses perpetradores de progroms, queixou-se baixinho ao longo dos anos da falta de solidariedade dos Gammer, que lhe baralhava as lealdades e me comunicava a ideia de que eram a personificação da frieza gentia dos britânicos – pouco expansivos, empertigados, controlados, pedindo pouco, dando pouco e desprezando os estrangeiros. A efusividade da minha mãe embaraçava-os. Os nossos animados tópicos de conversa, as nossas discussões apaixonadas, a música clássica do rádio ou do gramofone ouvida através as paredes – não muito alto, tínhamos sempre cuidado – os numerosos amigos e famílias cujos pés passavam pela sua porta a caminho da nossa, tudo isto deve ter-lhes parecido incompreensivelmente irritante, inflamando a sua opinião de que era indesejável ter estrangeiros entre si. Nós éramos estrangeiros, e além do mais bem-dispostos... o que tornava tudo pior.
Um dia, a minha mãe contou-nos uma história do motorista Bil Gammer que de forma clara, nítida e, pela parte que me toca, irremediavelmente, resumiu a sua mentalidade:

"... Escuta, vou contar-te uma história. Na porta a seguir à minha, na porta a seguir ao sítio onde eu vivo há um motorista de autocarro. É de Hoxton, tem a minha idade, casado com dois filhos. Diz-me bom-dia, eu pergunto-lhe como está, dou rebuçados aos filhos dele. É a relação que temos. Não sei porquê, mas parece que ele tem medo de dizer de mais, sabes? Deus me perdoe de lhe pedir o que quer que seja! Não fazemos exigências um ao outro. Então, um dia, os tipos dos autocarros entram em greve. Ele ficou parado durante cinco semanas. Todas as manhãs, passo por ele e digo “Continua, amigo, força, vão ganhar.” Todas as manhãs o encorajo; digo-lhe que compreendo a causa deles. Tenho de me levantar mais cedo para vir para o trabalho, mas não me importo. Somos vizinhos. Somos os dois trabalhadores, ele fica content e. Então, um domingo, há uma marcha pela paz. Não penso que sirva de grande coisa mas vou, porque neste mundo um homem tem de mostrar que tem qualquer coisa a dizer. Na manhã seguinte, ele chega ao pé de mim e diz - e agora ouve isto –, pergunta-me “ontem foste àquela marcha pela paz?” E eu digo que Sim, fui à marcha pela paz ontem. Então ele vira-se para mim e diz, “Sabes que mais? Deviam ter deitado uma bomba em cima daquela malta toda! Foi uma pena,” diz, “que tivessem crianças lá com eles porque deviam ter largado uma bomba em cima daquela malta!” E sabes o que é que o estava a chatear? A marcha tinha cortado o trânsito e os autocarros não conseguiam andar! Ora eu não quero que ele diga que tenho razão, não quero que concorde com o que eu fiz, mas o que me apavora é que ele nem parou um instante para pensar este homem ajudou-me na minha causa por isso talvez, só talvez, haja qualquer coisa na causa dele. Vou falar com ele. Não! Os autocarros tiveram de parar por isso, ele diz larga uma bomba, em cima daquela malta! E devias ter visto o ódio nos olhos dele, como se eu lhe tivesse assassinado o filho. Um animal, era o que ele parecia. E o horror é que… é que há um muro, um grande muro entre mim e milhões de pessoas como ele. E eu penso… onde é que isto vai parar? O que é que se faz? E olho à minha volta, na cozinha, nas fábricas, nos malditos enormes edifícios que se erguem com todos aqueles escritórios e toda aquela gente lá dentro e penso, Porra! Penso, porra, porra, porra!” [PAUL, A Cozinha]

Quando penso nas classes trabalhadoras inglesas, não consigo evitá-lo, lembro-me dos Gammer: incultos, intolerantes, impiedosos, velhacos, não inspirando a mínima confiança.
Esta ambivalência em relação às classes trabalhadoras fervilha como sinais de perigo em todas as minhas peças.
[…]
No meu espírito não resta a mínima dúvida de que esta profunda ambivalência tem raízes naquela relação com os nossos vizinhos, os Gammer, e que se foi alimentando com variados conhecimentos da escola, da construção civil em que trabalhei como ajudante de carpinteiro e de canalizador, mais tarde da Força Aérea e, mais tarde ainda, das cozinhas de Norwich, Londres e Paris. Talvez não fosse então de admirar que em Junho de 1970, o dramaturgo John McGrath, numa crítica a Os Amigos para o efémero semanário Black Dwarf tivesse terminado desta forma:

"O que ele [Wesker] não deve fazer é iludir seja quem for, incluindo a si próprio, fazendo crer que é de alguma forma socialista, ou que as suas peças têm a mais pequena relação com qualquer tipo de teatro socialista."
(Pp. 127-148)